Pensando Juntos

A Pauta do Amanhã

Antever cenários, identificar oportunidades, e apontar caminhos inovadores para gerar qualidade de vida, é a nossa missão

Registrada, a palavra escrita pode atravessar séculos.

A palavra escrita é registro e documentação. Não é volátil. Não se perde no vento, ainda que as redes sociais deem essa ilusão. Talvez, talvez, o registro seja ainda mais eficiente do que no papel, que pode ser destruído. Apertou o envio, não há resgate possível.

Hoje são os médicos bem posicionados que difundem notícias do prontuário de D. Marisa, ex-primeira dama do Brasil em um grupo de whatsapp. Há algum tempo, foi o jovem médico que riu da ignorância do seu paciente pelo facebook. Ontem a professora que chamou de justiça divina a morte de uma criança por bala perdida também numa rede social. Escrever sem pensar, expor o que vai no íntimo, espalhar idiotice e dor não escolhe autor: jornalista, político, jogador de futebol, rico ou pobre, escolarizado ou não.

A internet é uma praça pública, você não vê a todos, mas todos veem tudo ou pelo menos uma pessoa, insuspeita, verá. Ávida por movimento e por chamar a atenção, decidirá repercutir, sem vínculo nem responsabilidade alguma com você ou com a fonte. A partir daí, ela passa a contabilizar curtidas, comentários e compartilhamentos: as moedas da rede. Exposto, é domínio público. Não há sigilo. Não há privacidade. Não há relação de confiança.

Mesmo nos grupos, não há segurança, afinal, grupos são apenas recurso técnico. Existem para facilitar o fluxo de informação; não para proteger pessoas, não para delimitar a intimidade, não para preservar confidências. Ainda que seja um grupo de família, uma equipe de trabalho, turma de amigos, sempre haverá individualismo, estrelismo, competitividade. Afinal, quem tem a informação tem poder e não perderá a chance de dar um “furo”, ser o primeiro a dar notícia.

Arena de touros ou rinha de galos numa praça de aldeia
Profissionalmente, aprendi cedo a me preservar. Meu mentor, o professor Helinho, dizia: “Seu melhor amigo também tem um melhor amigo”. E a fofoca, a maledicência, a conversa fiada, o rancor, a inveja, o sadismo, existem desde que o mundo é mundo. Desde a serpente no paraíso, desde Caim e Abel, desde Lúcifer e seu desejo de ser adorado como deus, a ordem é construir ou destruir reputação desde que útil ou apenas divertido. Alguns agem pela fama, outros creem-se invisíveis.

Nem fada nem bruxa, era o título de um texto que, na década de 90, analisava o efeito da televisão sobre as pessoas. Digo o mesmo da internet e toda a tecnologia da comunicação a que temos acesso hoje: nem fada nem bruxa. Recursos tecnológicos são ferramentas, são neutras, como facas de cozinha, que podem passar manteiga no pão ou matar. Que uso se faz dela, quem a usa, em que momento e com que intenção? Esse é o ponto.

No manuseio dos recursos tecnológicos está o ser humano, seu comportamento, sua construção como indivíduo, suas crenças, seus valores aprendidos, validados e incentivados socialmente. A cultura do “olhe como sou esperto, rápido no gatilho, engraçado e corajoso” não para de fazer vítimas, bem aqui, no mundo real, fora das fábulas e das tragédias gregas. Por que então a surpresa. Achávamos que, tendo ferramentas de difusão instantânea de ideias, inutilidades e futilidades, estaríamos livres desse tsunâmi de boatos e agressões?

Sempre se falou muita besteira em espaços restritos, como a conversa do tio bêbado em final de churrasco, a zoeira em mesa de bar, pensar em voz alta (Ups! Quem não?). Mas a praça hoje é imensa, é global. Oh Marshall McLuhan, vidente da pós-modernidade, finalmente somos uma “aldeia global”. Aldeia, sim, com direito a fofoqueiros e patrulhadores de plantão,viciados em mídia, loucos para serem vistos, que julgam e punem até sangrar como numa arena de touros ou numa rinha de galos!

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6 fev 2017 - jornalista@paulosergiorosa.com